Gisele P. Legramanti

Engenheira de Bioprocessos e Biotecnologia da Enzilimp

 

Grandes quantidades de estercos, oriundos das práticas de criações confinadas, tais como a avicultura, suinocultura, entre outras, são geradas, trazendo transtornos para os criadores e principalmente consequências graves para o meio ambiente. Os estercos, independentemente do tipo de animal, possuem em sua composição grande quantidade de ureia. A preocupação com esse composto orgânico está relacionada com o fato de este ser tóxico, podendo causar doenças tanto para os animais confinados como para os trabalhadores, além de causar impactos ambientais em relação ao ar atmosférico, corpos d’água e solos, quando não tratados ou dispostos de forma incorreta.

A ureia possui em sua composição o nitrogênio, que por meio da decomposição natural, realizada pelos microrganismos presentes no ambiente, é convertido em outros compostos, tais como amônia, nitrito e nitrato, até sua decomposição completa em nitrogênio gasoso – essas etapas fazem parte do ciclo do nitrogênio. Porém, essa reação é naturalmente lenta, e quando a ureia se converte em amônia mais rapidamente que a conversão em nitrito, o excesso de amônia é volatizada e liberada no ar, causando fortes odores desse elemento nos ambientes de criações confinadas.

A utilização da técnica de biorremediação/bioaumentação nesse segmento é recente, porém vem ganhando a atenção de pesquisadores e Universidades com o intuito de solucionar e/ou reduzir os problemas relacionados a amônia nesses ambientes. Essa técnica está relacionada à introdução de microrganismos naturais nestes ambientes, chamados de microrganismos decompositores de matéria orgânica, ou saprófitas.

Essa introdução tem o objetivo de acelerar o ciclo do nitrogênio, ou seja, propiciar que a conversão da ureia em amônia e dessa em nitrito seja proporcional, evitando, assim, os excessos de amônia na forma volátil. Esses microrganismos aceleram essas reações devido ao equilíbrio que eles proporcionam entre a quantidade de alimento disponível (esterco/ureia) e a quantidade de microrganismos necessários para a utilização desses compostos e, consequentemente, a realização completa do ciclo do nitrogênio.

A utilização dessa técnica em criações confinadas iniciou-se de forma caseira, na qual produtores independentes, inovadores e principalmente preocupados com as consequências da amônia, inseriram esses microrganismos nas camas de seus aviários, de forma experimental, e obtiveram resultados surpreendentes em relação à diminuição dos fortes odores causados pela volatilização da amônia.

Em um primeiro momento, esses experimentos geraram resultados qualitativos, porém após a repercussão do uso, outros produtores e até mesmo empresas integradoras deram início aos testes chegando a resultados também quantitativos. Alguns resultados estavam relacionados aos benefícios da redução da amônia, tais como, diminuição da mortandade e das doenças respiratórias, aumento de peso dos animais e diminuição do período do lote. Também identificaram resultados significativos em relação à exportação, como a diminuição da calosidade das patas e do peito das aves, em função da melhor qualidade das camas, que é proporcionada pela maior degradação biológica, obtida com a ação acelerada desses microrganismos na matéria orgânica que se encontra disponível nas camas.